Blog

TEA: sinais precoces que antecedem ou vão além de atrasos na fala

25/04/2023

A cada dia recebemos crianças mais novas com suspeita de autismo. As informações disponíveis nas mídias sociais possibilitam que os pais detectem sinais precoces cada vez mais cedo, e isso tem permitido que as crianças tenham acesso a um tratamento quando ainda são bebês. Nesse post, abordamos sinais sutis, porém já presentes antes dos 12 meses de vida.

Atrasos na aquisição da fala costumam ser um dos primeiros sinais de alerta para os pais de que algo no desenvolvimento de seus filhos não está ocorrendo como o esperado. Porém, quando falamos em sinais precoces do Transtorno do Espectro Autista (TEA), podemos (e devemos!) estar atentos à comunicação como um todo (e não somente à fala), e, inclusive, a sinais que antecedem a etapa de aquisição da fala.

Há sinais de alerta importantes que podem ser observados já nos primeiros meses de vida.

Sinais de alerta para o TEA

– Prejuízos no contato visual que pode ser observados já nos primeiros meses, como quando a mãe está amamentando e o bebê não olha em seus olhos;

– 2 a 4 meses: ausência do sorriso social;

– 4 meses: ausência de reação antecipatória (levantar os braços para ser carregado);

– 6 meses: poucas expressões faciais, não fazer o primeiro balbucio, não responder ao ser chamado pelo nome ou demonstrar interesse por pessoas familiares;

– 9 meses: não fazer trocas de turno comunicativas, não balbuciar, apresentar imitação pobre, não olhar para onde apontam ou, quando chamado pelo nome, não responder às tentativas de interação;

– 12 meses: não falar ao menos duas palavras com função, ausência de atenção compartilhada, não brincar de modo funcional, não seguir comandos; déficits nos comportamentos não verbais (como não dar tchau, apontar ou mandar beijos);

– 18 meses: não falar pelo menos seis palavras com função, não saber partes do corpo, não responder em reciprocidade;

– 2 anos: não elaborar frases simples de duas palavras e não apresentar repertório vocal de aproximadamente 150 palavras, não brincar de modo simbólico (faz de conta).

Em qualquer idade, perder habilidades já adquiridas, apresentar comportamentos rígidos, restritos e repetitivos são sinais de alerta.

Apesar de esses serem sinais de alerta importantes, nem sempre o diagnóstico se dá precocemente. Temos inúmeros cenários e momentos de vida: casos de diagnósticos mais tardios; famílias que são “pegas de surpresa”, que não tinham praticamente nenhum conhecimento sobre o TEA; outras que já tinham essa desconfiança, que pesquisavam ou conheciam essa condição… Há ainda casos de subdiagnósticos, de diagnósticos errôneos, de famílias que enxergavam sinais em suas crianças mas demoraram a encontrar um profissional que pudesse fechar o diagnóstico, entre outras inúmeras possibilidades.

Vale ressaltar ainda os maiores desafios relacionados ao diagnóstico em meninas que se encontram no espectro nível 1 de suporte. Isso porque há particularidades no funcionamento cerebral feminino e comportamentos que impactam na apresentação da sintomatologia do TEA. O cérebro feminino é naturalmente mais sociável, flexível, com maior capacidade de imitação, empatia e para habilidades sociais esperadas nos relacionamentos interpessoais, o que faz com que alguns sinais mais sutis fiquem mais mascarados entre meninas, adolescentes e mulheres, atrasando muitas vezes o diagnóstico e/ou levando a subdiagnósticos.

Tudo isso reforça a importância de maior conscientização a respeito dos sinais de alerta para o TEA e de profissionais capacitados para esse que esse diagnóstico seja realizado o mais precocemente possível, possibilitando assim intervenções também mais precoces, que são fatores preditivos para uma evolução mais favorável.
@dradeborahkerches @ellenmanfrim_neuropediatra

Dra. Deborah Kerches

Dra. Deborah Kerches
Neuropediatria e Saúde Mental Infantojuvenil
Especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Últimas publicações

Prematuridade e autismo: existe alguma relação?

Prematuridade e autismo: existe alguma relação?

Muitas pesquisas têm se dedicado a descobrir se o nascimento prematuro contribui de alguma forma para maior risco de autismo, ou, ainda, se prematuridade e autismo podem compartilhar influências genéticas ou ambientais. Um estudo recente, considerado o de maior...

ler mais
O que você sabe sobre gagueira?

O que você sabe sobre gagueira?

A gagueira é um distúrbio neurobiológico da fluência da fala, que se manifesta na infância, podendo persistir na vida adulta. Até 3-4 anos pode ser considerado disfluência e faz parte do processo da linguagem. Quando persiste ou surge depois dessa idade, merece...

ler mais

Bullying e Transtorno do Espectro Autista

O bullying corresponde à prática de atos intencionais de violência, física ou psicológica, cometidos por um ou mais agressores contra um indivíduo ou grupo. Pode gerar prejuízos significativos na vida de muitas crianças e adolescentes, tendo eles desenvolvimento...

ler mais
Nunca foi tão importante falar sobre Saúde Mental

Nunca foi tão importante falar sobre Saúde Mental

Nunca foi tão importante falar sobre Saúde Mental. O aumento de transtornos ansiosos e transtornos de humor, especialmente depressão, entre adolescentes e jovens têm sido significativo nos últimos anos. A situação torna-se ainda mais preocupante com essa pandemia...

ler mais
Cérebro feminino e Transtorno do Espectro Autista

Cérebro feminino e Transtorno do Espectro Autista

🧠Há particularidades no funcionamento cerebral feminino e comportamentos que impactam na apresentação das características do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e justificam por que o diagnóstico costuma ser mais tardio em meninas. 🧠Estudos sugerem que o cérebro...

ler mais
Cérebro e Neuroplasticidade

Cérebro e Neuroplasticidade

O desenvolvimento do cérebro humano inicia-se ainda no período intrauterino, o que vai estabelecer a arquitetura básica, funcionamento e conectividade cerebral do bebê. Qualquer insulto ou prejuízo já nessa fase pode impactar negativamente em relação à saúde física,...

ler mais