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O brincar no Transtorno do Espectro Autista (TEA)

29/12/2020

O brincar ocorre de forma natural para crianças com desenvolvimento típico. Crianças no espectro autista, porém, apresentam déficits em diferentes habilidades que fazem com que o brincar seja algo a ser aprendido.

Dessa forma, é necessário ensinar a criança a brincar, através de programas bem direcionados que contemplem as diferentes maneiras do brincar, lembrando que todas são essenciais para o pleno desenvolvimento de uma criança, estando ela no espectro autista ou não.

Entre as diferentes maneiras de brincar, podemos destacar: o brincar independente, brincar funcional, brincar simbólico, brincar de faz de conta e o brincar compartilhado.

A importância do brincar independente

No brincar independente, a criança é capaz de engajar-se em atividades com objetos e brinquedos sem precisar da presença de outra pessoa naquele momento para ensinar a função do objeto ou mediar a brincadeira.

É importante para a criança ser capaz de se divertir e aprender sozinha.

O brincar independente:

– Estimula a autonomia e independência;
– Favorece o enfrentamento de situações novas, problemas e a autorregulação emocional;
– Diminui a agitação;
– Estimula a concentração;
– Favorece a imaginação e a criatividade;
– Prepara a criança para a vivência escolar e com seus pares.

Para incentivar a criança a brincar sozinha, é importante criar um espaço seguro para ela dentro de casa, e que esse espaço seja livre de telas e conte com brinquedos e objetos que não demandem ajuda e permitam um brincar independente e criativo, ou seja, que a deixem livre para “criar e controlar o jogo”!

A importância do brincar funcional

No brincar funcional, a criança é capaz de dar função adequada a um ou mais objetos e brinquedos que envolvem a brincadeira, como fazer um carrinho andar em uma pista (e não virá-lo para rodar suas rodinhas), chutar uma bola, colocar um telefone de brinquedo no ouvido etc.

O brincar funcional:

– Faz a criança compreender melhor o mundo ao seu redor, preparando-a para diversas situações sociais;
– Estimula a concentração e a paciência;
– Favorece a criatividade
– Propicia o reconhecimento da lógica e/ou da sequência;
– Estimula a coordenação motora fina e grossa;

– Prepara a criança para a vivência com os pares, entre outros benefícios.

No desenvolvimento neurotípico, o brincar torna-se naturalmente funcional, especialmente a partir da observação e imitação.

No TEA, déficits em diferentes habilidades costumam trazer prejuízos para o desenvolvimento do brincar funcional. A criança pode utilizar os brinquedos/objetos de forma repetitiva ou estereotipada, se interessar mais por partes do brinquedo do que por ele todo, entre outras possibilidades.

O brincar funcional no TEA costuma ser menos elaborado, menos variado e integrado.
Em programas de ensino que envolvam o brincar, são necessárias estratégias a fim de que possamos acessar a criança através da sua maneira de brincar e de seus interesses, podendo, assim, aos poucos, ampliar seu repertório, mostrando a ela as funções adequadas de cada objeto ou brinquedo.

A importância do brincar simbólico

No brincar simbólico e imaginativo, a criança é capaz de usar um objeto ou brinquedo como se fosse outro. A imaginação possibilita que a criança experimente o novo, vislumbre possibilidades. Exemplos: usar uma caixa como se fosse uma casa, uma lata como telefone, folhas como dinheiro etc.

Os benefícios do brincar simbólico são inúmeros, dentre os quais podemos destacar:

– Desenvolve competências de raciocínio e imaginação;
– Trabalha a abstração, levando a criança além do ambiente físico;
– Estimula a flexibilização e a superação de desafios a partir da visualização de novas possibilidades;
– Prepara a criança para as mais diversas interações sociais.

O brincar simbólico revela muita coisa sobre os interesses individuais da criança, suas necessidades e o nível de desenvolvimento cognitivo já alcançado.

A importância do brincar de faz de conta

No brincar de faz de conta, a criança é capaz de atuar, trocar de papéis. Para isso, precisa pensar, abstrair, elaborar, construir e representar, usando a criatividade, o que a prepara para as mais diversas vivências sociais. Exemplo: brincar de médico, de escolinha etc.

São vários os benefícios do faz de conta, como:

– Trabalha a abstração, levando a criança além do ambiente físico;
– Estimula a criatividade e a imaginação;
– Prepara a criança para novas experiências e situações sociais;
– Trabalha a linguagem;
– Estimula o interesse pelo outro e, consequentemente, a habilidade da imitação;
– Permite que a criança expresse seus sentimentos, controle ansiedades e medos;
– Favorece o desenvolvimento da identidade e estimula a afetividade.

As crianças, em geral, começam a ter a capacidade de brincar de faz de conta por volta dos dois anos, e essa habilidade vai ficando mais elaborada gradualmente.

No Transtorno do Espectro Autista (TEA), costuma haver déficits na compreensão acerca do faz de conta, por isso, é essencial que ele seja estrategicamente estimulado entre elas.

Em todos os casos, é essencial que o nível do faz de conta esteja adequado ao desenvolvimento da criança. Vale começar com abstrações bem simples e deixá-las mais complexas gradualmente. Por isso também a atividade precisa ser consistente, ou seja, repetida com frequência.

A importância do brincar compartilhado

O brincar compartilhado (no qual cada parceiro tem sua vez, com trocas de turno comunicativas) configura-se como uma das vias mais importantes de interação e oferece diversos benefícios ao desenvolvimento da criança, como:

– Promove a sensação de pertencimento a um grupo;
– Ajuda na construção da autoestima;
– Promove aprendizado acerca de regras e de como lidar com as frustrações;
– Ensina a criança a dividir e compartilhar;
– Trabalha a linguagem;
– Trabalha a capacidade de reconhecer o momento de falar e de ouvir;
– Prepara a criança para as mais diversas interações sociais futuras;
– Promove o aprendizado acerca de valores e comportamentos;
– Exercita a empatia e estimula a cooperação.

Por tudo isso, o brincar deve sempre ser estimulado ente as crianças e levado a sério! E, especialmente no tratamento do Transtorno do Espectro Autista, devem existir programas bem direcionados nesse sentido, contemplando as diferentes maneiras do brincar, sempre respeitando etapas e particularidades.

Dra. Deborah Kerches

Dra. Deborah Kerches
Neuropediatria e Saúde Mental Infantojuvenil
Especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA)

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