Blog

Síndrome de Asperger ou Transtorno do Espectro Autista nível 1?

18/02/2021

Após a última revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos de Saúde Mental (DSM-5), as pessoas com Síndrome de Asperger passaram a se enquadrar no diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista nível 1. A nomenclatura Síndrome de Asperger ainda está vigente na CID-10 (Classificação Internacional de Doenças), porém, em 1º de janeiro de 2022, quando a CID-11 entrará em vigor, será também englobada no espectro autista nível 1.

Apesar disso, a nomenclatura ainda é bastante citada, especialmente para dar destaque a diferenças importantes que existem entre pessoas com Asperger e demais pessoas que estão no espectro nível 1.

Para maior contextualização, pode-se dizer que: toda pessoa com Síndrome de Asperger está no espectro autista nível 1, porém, nem toda pessoa que está no espectro nível 1 se enquadraria na Síndrome de Asperger.

Dentre o grupo que se encontra no espectro autista nível 1, as pessoas com características de Síndrome de Asperger seriam aquelas mais funcionais, que apresentam, de forma geral, prejuízos relacionados a inabilidades sociais, comportamentos excêntricos e/ou repetitivos, pensamentos mais rígidos, práticas e rituais incomuns e interesses restritos. Tendem a apresentar hiperfoco e prejuízos psicomotores que lhes dão aspecto “desajeitado”, “estabanado”. Não há atraso intelectual e o quoeficiente intelectual costuma ser médio, em torno de 100, embora algumas possam apresentar quociente intelectual (QI) superior e altas habilidades.

A comunicação social fica comprometida em algum grau, embora os prejuízos sejam mais sutis. Elas costumam se comunicar verbalmente e socialmente espontaneamente, porém, muitas vezes, de maneira inadequada e até mesmo excêntrica. Geralmente não há atraso na aquisição da fala, mas, essa conta, muitas vezes, com particularidades, como, por exemplo: repertório extenso, vocabulário rebuscado e mais formal; uma fala mais estruturada gramaticalmente, com alteração na prosódia, timbre e altura de voz. Costumam existir falhas na compreensão de figuras de linguagem, gírias, piadas, mímicas faciais e linguagem corporal, interpretações mais literais, além de dificuldades em iniciar e manter uma conversa. A fala geralmente é mais para demanda própria do que para compartilhar – o que pode conferir a elas aspecto rude ou insensível. Podem, assim, ficar por horas falando sobre um determinado assunto sem perceber que a conversa não está agradando.

As pessoas com Asperger geralmente não apresentam atrasos nos marcos do desenvolvimento motor, dificuldades pedagógicas e nem de autocuidado – o que faz com que sejam bastante funcionais e adquiram independência sem grandes desafios. Como as características são mais sutis, podem passar despercebidas na criança pequena, ficando mais notáveis quando se aumentam as demandas sociais, como a partir dos 7 anos, na adolescência ou até mesmo na fase adulta, o que explica diagnósticos mais tardios.

As demais pessoas que se encontram no TEA nível 1 – mas não se enquadram na Síndrome de Asperger –, por vez, apresentam maiores prejuízos em relação à reciprocidade e comunicação social, no contato visual; podem apresentar algum atraso na aquisição da fala (menos significativo do que naquelas que se encontram no espectro moderado ou grave, mas o suficiente para trazer prejuízos); fazem mais ecolalias e estereotipias (embora também presentes naquelas diagnosticadas com Síndrome de Asperger); tendem a responder menos quando chamadas; imitam menos; exploram menos os brinquedos de maneira adequada; apresentam maiores dificuldades para aprender jogo simbólico e novas habilidades. As alterações sensoriais costumam ser mais evidentes, assim como prejuízos motores.

Ainda que as características sejam mais “leves” nas pessoas com Asperger, elas costumam apresentar ao longo da vida desafios nos relacionamentos, no traquejo social, para se adaptar a novas rotinas etc. Por terem maior compreensão do todo, costumam se angustiar mais com a percepção que os outros têm a respeito delas – o que as deixa mais vulneráveis a comorbidades como, por exemplo, Transtornos Ansiosos, depressão, entre outras.

A maioria das pessoas com Asperger terá uma vida funcional, ingressará no mercado de trabalho, constituirá família, mas, ainda assim, o diagnóstico e intervenções especializadas (principalmente no sentido de trabalhar habilidades sociais) são importantíssimos e garantirão que cada pessoa tenha o entendimento adequado a respeito das particularidades dessa condição, lidando melhor com possíveis dificuldades e desenvolvendo ainda mais suas potencialidades.

Dra. Deborah Kerches

Dra. Deborah Kerches
Neuropediatria e Saúde Mental Infantojuvenil
Especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Últimas publicações

Como a neurociência explica as birras?

Como a neurociência explica as birras?

As birras fazem parte do desenvolvimento da criança e são uma maneira de a criança “dizer algo” que ainda não sabe como, porque não tem maturidade cerebral para lidar e expressar de outra maneira suas emoções, como, por ex., raiva, medo, cansaço, fome, sono, entre...

ler mais
Pareamento e Transtorno do Espectro Autista

Pareamento e Transtorno do Espectro Autista

O pareamento ou emparelhamento é uma forma de ensinar o reconhecimento visual dos estímulos do mundo. É habilidade fundamental para todas as crianças, já que trabalha questões visuais, perceptivas e cognitivas. Quando pensamos em particularidades do Transtorno do...

ler mais
Imitação e Fala

Imitação e Fala

Desde muito cedo, somos capazes de imitar expressões faciais, gestos, sons, entonação, ações, etc. Bebês e crianças são naturalmente observadores e, assim, aprendem a imitar e adquirem os mais diversos aprendizados. A habilidade de imitar é um dos pré-requisitos para...

ler mais
Como trabalhar Inteligência Emocional em crianças com TEA

Como trabalhar Inteligência Emocional em crianças com TEA

Diante dos desafios que a própria condição impõe, torna-se essencial trabalhar a inteligência emocional junto à criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Quando a criança aprende a nomear e reconhecer as emoções, ela passa não só a compreendê-las e...

ler mais
Inteligência emocional e Transtorno do Espectro Autista

Inteligência emocional e Transtorno do Espectro Autista

Ao contrário do que alguns pensam, as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) têm sentimentos, desejam expressar tais sentimentos, se relacionar, mas, muitas vezes, podem não saber como. Essa, porém, não é uma regra: na prática clínica, observa-se que...

ler mais
Posicionamento da  SBP sobre o retorno às aulas

Posicionamento da SBP sobre o retorno às aulas

A reabertura das escolas em meio à pandemia da Covid-19 ainda divide "opiniões". Por um lado, o risco de contágio especialmente neste momento em que o Brasil tem apresentado altos índices de contaminação; por outro, a preocupação com os impactos negativos relacionados...

ler mais
Brincadeiras para trabalhar imitação

Brincadeiras para trabalhar imitação

Brincadeiras simples de imitação proporcionam diversão e muito aprendizado! A imitação deve ser consolidada na infância e é pré-requisito para que novos aprendizados em qualquer contexto social sejam mais facilmente incorporados, como desenvolvimento motor, da...

ler mais
Gaming Disorder

Gaming Disorder

A Organização Mundial de Saúde (OMS) atualizou a 11ª edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde -CID-11 (instrumento necessário para se avaliar o estado de bem-estar de uma população ou de um país) em 18 de junho...

ler mais
Há benefícios no uso de telas?

Há benefícios no uso de telas?

Já sabemos que os estímulos off-line, o brincar, as relações, não podem ser substituídos por telas. Da mesma forma, devemos reconhecer que a tecnologia não pode ser vista somente como “vilã”: quando utilizada de forma adequada, associada a outros meios de percepção do...

ler mais
Recomendações para o uso de telas

Recomendações para o uso de telas

Diante dos riscos que a exposição excessiva a telas oferece à saúde mental e física das crianças, temos recomendações claras de como elas devem ou não ser utilizadas. Principais orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP): ✅Evitar a exposição de crianças...

ler mais